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Os japoneses são frios? — III: As boas maneiras.

Uma das coisas que, na época que eu cheguei no Japão, causava-me certa aversão são os bons modos dos japoneses. Pode parecer estranho dizer isso, mas acredito que qualquer brasileiro entenderia exatamente o que eu quero dizer se eu colocar assim: os japoneses são educados demais.

Eu uso a palavra “educação” aqui no sentido de “boas maneiras” ou de “cuidados com a etiqueta”. É o sentido ao qual se refere a palavra reigi (礼儀) em japonês. As boas maneiras geralmente são vistas como virtudes, mas, na nossa cultura, há o que podemos chamar de “educação excessiva”. Ou seja, é bom que se seja educado, mas não demais. Se passar de um certo limite, o sujeito começa a ser visto como bajulador, esnobe, fresco, ou simplesmente passa a impressão de que quer manter uma certa distância, o que também não é admissível entre os brasileiros. Foi isso que não me agradou com relação aos japoneses: eu pensava que eles queriam manter distância de mim. Eu me sentia de certa forma excluído porque os meus colegas da universidade não utilizavam a mesma linguagem que eu ouvia eles falavam entre eles.

Para explicar melhor, primeiro eu tenho que falar um pouco sobre a língua japonesa. A gramática do japonês é bem mais simples do que a do português. Não há plural, nem gênero e poucas flexões verbais — ao passao que em português temos 5 tempos e 3 modos, a língua japonesa só tem dois tempos: presente e passado. Por outro lado, há inúmeras formas que são usadas para expressar respeito ao interlocutor ou modéstia do falante. Por exemplo, o verbo auxiliar suru pode se tornar shimasu, itashimasu, saseteitadakimasu, saremasu, podendo também ser substituído por nasaimasu, dependendo de com quem e o que estamos falando.

Um dia, quando eu estava me arrumando para voltar para casa da universidade, um colega perguntou: “o-kaeri desu ka?” (o senhor vai embora?). Nesse dia, eu me irritei um pouco e tive que dizer para não falar assim comigo. Acontece que existem basicamente — digo basicamente porque existem mais — 4 maneiras de se perguntar se alguém vai embora: kaeru?, kaerimasu ka?, o-kaeri desu ka? e kaeraremasu ka?, indo nessa ordem do menos educado para o mais educado. Ou seja, ele usou a segunda forma mais educada para falar comigo, um simples colega de aula, que, ao meu ver, deveria ser tratado como igual, usando a primeira forma.

O fato é que eu sou 3 anos mais velho do que ele e, na ocasião, ele estava no primeiro ano do Mestrado e eu no primeiro ano do Doutorado. Na sociedade hierarquizada do Japão, 1 ano de diferença na idade já é motivo para se utilizar formas mais educadas de se falar. Mesmo sabendo disso, eu queria ser difereter, eu queria me sentir mais próximo dos meus colegas. Queria que eles me tratassem como um igual, como os estudantes brasieiros tratam-se uns aos outros. No Brasil não existe diferença entre estudantes. Numa escola brasileira, existem duas categorias de pessoas: os alunos e os professores. Eu não conseguia aceitar estar num grau de hierarquia diferente dos colegas que passavam o dia inteiro na mesma sala fazendo a mesma coisa que eu fazia.

Naquele dia, o meu colega me olhou com uma cara de ponto de interrogação, tentando entender o que eu queria dizer. Acho que, no final, ele acabou entendendo, mas não consegui fazê-lo mudar o seu jeito de falar. É que os bons modos — ou pelo menos o que os japoneses entendem por bons modos — são uma coisa tão natural para eles que eles simplesmente não conseguem se despojar desse hábito. Isso fica claro quando se vê japoneses que nunca moraram no exterior tentando falar inglês. Eles ficam completamente perdidos com a falta de expressões para demonstrarem respeito com o interlocutor. Não me restou outra alternativa senão agüentar o excesso de educação dos meus colegas, pois a maioria estava abaixo de mim na hierarquia dos alunos.

Para os estrangeiros, utilizar a forma correta do verbo conforme a situação e o interlocutor não é uma tarefa fácil, pois é difícil de julgar a situação e a pessoa correta para se usar determinado palavreado e forma verbal. Quando eu comecei a trabalhar no hotel, tive a oportunidade de utilizar vários níveis de respeito e modéstia ao falar. Precisava que falar diferente, dependendo de se estava me dirigindo um chefe, um colega mais antigo, com colega mais novo, um hóspede, uma pessoa de idade, uma criança, etc. Quando eu me dei por conta, estava sorrindo e até me mexendo como japonês. Não há outra maneira de falar japonês corretamente, se não se observar as regras de etiqueta mais integralmente.

Mas afinal, qual é o segredo para se julgar em que situação e com qual interlocutor utilizar determinado palavreado? A resposta está no coração. Só é possível falar japonês corretamente se realmente sentirmos um respeito sincero pelas pessoas. O palavreado e a flexão verbal sai naturalmente como expressão desse respeito. Mesmo que não esteja totalmento correto gramaticalmente, não poderia estar mais correto do que se não representasse o que o falante está sentindo enquanto fala. Estudar as inúmeras regras de etiqueta e expressões gramaticais de respeito não é suficiente para falar e agir corretamente. É necessário sentir respeito e consideração pelos que nos rodeiam para que possamos nos comportar educadamente dentro da cultura japonesa.

O “excesso” de educação e cerimoniosidade que nós interpretamos como frieza, na verdade só pode existir quando o respeito vem do coração. A exata característica dos japoneses que é tida por nós como frieza é uma das suas maiores expressões dos mais calorosos, sinceros e virtuosos sentimentos humanos.

O-bon (お盆)

Há duas ocasiões no ano em que as famílias japonesas se reúnem, uma no verão (o-bon – お盆) e outra no inverno (o-shogatsu – お正月). O-bon é uma data budista e o-shogatsu, xintoísta. Embora pouco mais da metade dos japonesese sejam oficialmente budistas e pouco menos da metade sejam oficialmente xintoísta, na época do o-bon, todos se tornam budistas e na época do o-shogatsu, todos se tornam xintoístas.

Mukaebi.

O-bon é comemorado nos dias 13, 14, 15 e 16 de agosto e corresponde mais ou menos ao nosso dia de finados. É uma data dedicada aos mortos, mas com uma grande diferença: ao invés de as pessoas irem visitar os mortos no cemitério, são os mortos que vêm visitar as pessoas em casa! Pelo que eu ouvi falar, a comemoração em si varia de região para região e, dependendo, as famílias vão buscar os seus mortos no cemitério para trazê-los para passar uns dias em casa. No entanto, acho que as famílias xintoístas não podem fazer isso, porque eles cremam os seus mortos.

De uma forma ou de outra, é importante iluminar o caminho dos mortos até a sua casa. Por isso, no início do o-bon, as pessoas acendem um fogo chamado (mukaebi – 迎え火). Eu acho que aqui em Quioto eles fazem isso dentro de casa, porque eu nunca vi ninguém acendendo fogo do lado de fora. Durante o período do o-bon, os visinhos se reúnem e saem andando em fila pelo bairro segurando umas lanterninhas. Tradicionalmente, utilizam-se aquelas lanterninhas japonesas que se parecem com balões de são joão, mas eu já vi os mes vizinhos saírem com lanternas de pilha comuns. Na verdade, cada vizinhança tem a sua própria maneira de guiar o caminho dos mortos.

Não são só os mortos que voltam para casa durante o o-bon. Os vivos também o fazem. Nesse sentido, o o-bon japonês é semelhante ao nosso Natal. As estações e estradas ficam lotadas de gente voltando para as suas cidades de origem e é triste quando uma pessoa não pode se reunir com os seus familiares durante esse período.

Eu não sei exatamente o que as famílias fazem quando se reúnem para o o-bon. No Japão, raramente há a oportunidade de entrar na casa das pessoas, especialmente quando há reunião com os familiares. Eu bem que gostaria de receber um convite do tipo: vai passar o o-bon lá em casa, mas sei que isso não vai acontecer tão fácil.

Falando sobre isso com um colega de Okinawa, ele me explicou como eles fazem lá. No último dia do o-bon, eles fazem um jantar com os antepassados mortos. Conversam com eles, como se eles realmente estivessem presentes, contam novidades e pedem para que os antepassados os protejam durante o ano. Ao terminar o jantar, a porção de comida oferecida aos antepassados é queimada e todos saem para a rua para dançar.

Okinawa está para o Japão assim como a Bahia está para o Brasil. No Japão raramente se dança. Em Okinawa o o-bon é apenas uma das oportunidades. Eles dançam também em casamentos e outros festivais. O número de cantores e bandas originárias de Okinawa também é proporcionalmente maior do que os que se originam de outras regiões. É uma cultura mais alegre e menos estressada.

Sendo assim, no o-bon de lá, em vez de os vizinhos saírem caminhando enfileirados segurando lanterninhas como fazem aqui, eles saem, vestindo roupas típicas, dançando e tocando tambor e shamisen. Embora a música seja semelhante, cada vizinhança tem a sua própria dança e há uma espécie de competição quando duas vizinhanças se cruzam em algum ponto da cidade. Eu acredito que os mortos devem acompanhar os vivos na dança, e devem seguir dançando até chegarem de volta ao seu mundo.


A letra dai (大).



O desenho de um barco.



A letra myo (妙).

Aqui em Quioto, o caminho dos antepassados de volta para o mundo dos mortos é iluminado com fogo, que se chama okuribi (送り火). Mas, desta vez não é um foguinho feito dentro ou na frente de casa. Aqui eles colocam fogo nas montanhas! O okuribi de Quioto é famoso internacionalmente e muitas vezes referido como daimonji (大文字), que significa literalmente letra grande ou a letra dai. Acontece que o fogo nas montanhas é feito na forma de letras enormes, e uma dessas letras é o dai (大).

A letra ho (法) vista de perto e pessoas observando.

As outras letras são myo (妙) e ho (法), que juntas formam uma palavra que significa lei mística (do budismo). Além das letras, há o desenho de um barco e o desenho de um torii (aqueles portões japoneses que tem na frente dos templos). Não sei qual o significado dessa combinação de letras e desenhos e acho que a maioria das pessoas nesta cidade também não sabem. Acho que isso nem é tão importante; o importante é se despedir dos mortos, que só voltaremos a rever no ano que vem.

Para mim, que não sou budista, o o-bon tem um signifcado mais mundando. Dizem que o o-bon marca o fim do verão. Eu odeio o verão, principalmente o verão de Quioto, onde a temperatura fica entre mais de 35 graus de dia e não menos do que 30 à noite, com a humidade sempre tão alta que a cidade chega a ficar coberta com uma neblina. Adoro o-bon!

O Imperador é um deus?

O Imperador Hirohito, após a derrota na guerra, proferiu e assinou uma declaração dizendo que ele era um ser humano comum, que não era um semi-deus. Hoje, quando perguntados sobre o Imperador, os japoneses respondem como papagaios: O Imperador é um ser humano comum e não tem poderes políticos. Ele é apenas um símbolo. E sempre há os que acrescentam: Nós não precisamos de Imperador. Ele não serve para nada.

O Imperador Showa

Pode-se perguntar para qualquer um aqui e a resposta sempre vem praticamente nas mesmas palavras. Por isso eu disse que eles repetem como papagaios. Para mim, isso é um sinal claro de eles sofreram e ainda sofrem lavagem cerebral, tanto por parte das escolas como por parte da mídia. Mas, pelo que eu sinto, eles falam isso da boca para fora, enquanto, mesmo sem perceber, sentem outra coisa.

Com relação a religião, também, todos os japoneses que eu conheço se declaram ateus, embora os mesmos façam hatsumode no Ano Novo, comemorem o o-bom no verão e casem-se ou em cerimônias cristãs (mais de 60%) ou xintoístas. Neste ponto, no entanto, eu acredito que seja um sentimento real: os japoneses não praticam, nem acreditam em nenhuma religião. Tanto é assim, que muitos não entendem mais o que é o xintoísmo.

O xintoísmo é uma religião própria do Japão. Embora tenha grande influência do confucionismo (que não é uma religião) e menos do budismo, é uma religião autenticamente japonesa. O xintoísmo é politeísta, e que cada templo xintoísta — chamado de jinja &mdash é dedicado a um ou mais deuses. O xintoísmo também considera — ou pelo menos considerava — o Imperador como sendo um deus. Este é um ponto que causa grande polêmica, principalmente no ocidente, pois os cristãos acham um absurdo adorar um homem vivo como sendo um deus.

Realmente seria um absurdo se os deuses xintoístas fossem como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Mas não são. Eu acho que a analogia mais próxima é com os santos católicos. Com uma grande diferença: os deuses xintoístas não são santos. Uso santo aqui com o sentido de extremente benevolente, caridoso ou inocente. A Madre Tereza é uma santa nesse sentido, mas os deuses xintoístas não são. Eles têm características humanas (embora nem todos sejam humanos), tem as suas preferências, os seus desafetos e por vezes se vingam dos seus inimigos. Nesse ponto, podem lembrar um pouco com os deuses (ou santos) da umbanda, mas só um pouco, pelo simples fato da umbanda também ser uma religião politeísta.

Acontece que todos os deuses da umbanda são mitológicos. Não existe a história deles como homens. Eles sempre foram deuses. Muitos deuses do xintoísmo, por outro lado, foram homens, como os santos católicos. Eu não estudei muito sobre o xintoísmo, mas pelo que eu entendo, é muito mais simples de erguer um templo para venerar um ex-homem e tê-lo aceito pelo xintoísmo do que canonizar um santo católico.

Para se ter uma idéia da comparação, eu diria que se o Brasil fosse xintoísta, Ayrton Senna seria um deus. Provavelmente também o seriam, assim que falecessem, o Pelé e o Roberto Carlos, afinal, ambos são reis não são? Posso citar outros como Tiradentes, Santos Dumond, Carlos Chagas (o da doneça de Chaas) e, porque não, Zumbi dos Palmares. Cada um desses teria um tema. Ayrton Senna seria o deus dos motoristas; Tiradentes, o deus dos dentistas, e da saúde bucal; Carlos Chagas seria o deus da cura das doenças incuráveis; Santos Dumond, o deus da aviação e da pontualidade; e Zumbi dos Palmares poderia ser o deus da luta pela liberdade.

É nesse sentido que o xintoísmo considera(va?) o Imperador um deus. O Imperador, contudo, declarou da sua própria boca que não era um deus. O que mudou? Na minha opinião, nada. Pode ter mudado a constituição, podem ter-lhe tirado o poder político, podem tê-lo desmoralizado perante o povo japonês e o mundo, mas não há como tirar-lhe a divindade. Deus existe enquanto houver quem acredite nele. Como eu disse, os japoneses não acreditam, mas muita gente, quando precisa de ajuda, vai até o templo do seu deus preferido, bate três palminhas, toca o sino e faz o seu pedido.

No xintoísmo não se exige uma fé do tamanho de um grão de mostarda como no cristianismo. Não precisa ter fé. A sua fé não vai mudar a vontade dos deuses. Não há a obrigação de acreditar e, talvez, por isso mesmo, e mesmo sem parecer, os japoneses acreditam. No Japão não é um sacrilégio falar abertamente que não acredita em Deus (em nenhum deus). E também não é uma incongruência se essa mesma pessoa sair dali e ir fazer um pedido num templo. Nesse sentido, embora muitos tenham convicção de que o Imperador não é um deus, outros, talvez por costume e tradição, talvez por genuíno sentimento religioso, embora possam negar com a boca, acreditam em seus corações.

Hotéis no Japão

No Japão existem vários tipos de hotel, com características diferentes e voltados para mercados diferentes. Há os hotéis de turismo, para pessoas que não se importam em gastar um pouco mais em troca de um ambiente agradável e um atendimento de primeira. Há hospedarias de estilo japonês conhecidas com ryokans. Os hotéis de negócios são para pessoas que viajam a negócios e só precisam de um lugar para dormir. Há também os love hotels, que são para quem quer apenas fazer amor :) .

Aproveitando que a questão dos love hotéis foi levantada no artigo anterior, eu resolvi falar um pouco sobre os vários tipos de hotéis que existem no Japão. Em quase 5 anos trabalhando em hotel, eu acabei aprendendo algum coisa sobre os tipos o que os japoneses esperam de um hotel.

City Hotel (シティーホテル)

Este tipo de hotel é próximo ao que nós entendemos por “hotel 5 estrelas”, sendo por isso geralmente classificados como kokyu hoteru (高級ホテル – hotel de alta classe). Esses hotéis oferecem, como padrão, quartos relativamente espaçosos, geralmente para duas duas pessoas. Há também quartos melhores (=maiores), com alguns acessórios a mais (o que muda exatamente depende do hotel), com uma sacada e/ou uma vista melhor. Esses quartos são chamados de deluxe (デラックス) ou superior (スーペリア). Obviamente, há também as suítes, com pelo menos dois ambientes: uma sala de estar e o quarto de dormir.

Não pode faltar também uma sala de ginástica, geralmente com piscina e sauna e um business center, com computadores ligados na internet, impressoras, fax, telefone e outras instalações necessárias aos homens de negócio. Em alguns hotéis, há pontos de acesso à internet sem fio no saguão também.

Geralmente nos andares inferiores, há lojas e restaurantes que não se limitam aos hóspedes, mas também atendem o público em geral. Tudo muito chique e também muito caro. Dependendo do hotel, pode haver também salões de beleza, barbearias, engraxate, padarias, cafés, bares, etc. Muitos hotéis têm terraços, onde no verão eles fazem o que se chama de beer garden, onde se paga para entrar e come-se salgados e bebe-se cerveja à vontade enquanto se aprecia a paisagem e a brisa do verão. É caro, mas vale a pena ir uma vez por ano, afinal é só no verão.

Mesmo num hotel pequeno, há pelo menos um enkaijo (宴会場 – salão de banquetes/convenções), mas geralmente há vários de tamanhos diferentes para abrigar vários tipos de reunião, que podem ser desde recepções particulares com algumas dezenas de pessoas até convenções de grandes empresas com várias centenas de participantes. Os hotéis maiores também aproveitam esses espaços para fazer dinner shows, que são jantares com a apresentação ao vivo de cantores famosos.

Até aqui, eu acho que a descrição não é muito diferente do que seria um hotel 5 estrelas no ocidente ou em qualquer outro lugar do mundo. No Japão, no entanto, para um hotel ser visto como “de alta classe”, há dois pontos que são fundamentais: (1) a espaçosidade, principalmente do saguão e dos corredores e (2) a qualidade do atendimento prestado por seres humanos. Se faltarem esses dois pontos, por melhores que sejam as camas, os restaurantes, a piscina ou qualquer outra instalação, os japoneses não hão de considerá-lo um bom hotel.

Num país onde as pessoas moram em apartamentos e casas apertadas, onde as ruas são estreitas e cheias de gente e onde o preço do metro quadrado de um terreno na cidade é caríssimo, o abuso do espaço na construção do saguão e dos corredores dá um ar de riqueza ao ambiente. Os saguões são geralmente construídos com poucos obstáculos à visão, muitos espaços vazios e um pé-direito bem alto de forma que se possa ver coisas e pessoas a grandes distâncias dentro do ambiente.

O atendimento

Não sei se é porque esse é o meu trabalho, mas eu acho que não há nada mais importante num hotel de alto padrão do que o atendimento. As instalações podem não ser tão boas, o hotel pode não ter piscina, nem bons restaurantes, mas se tiver um atendimento atencioso, caloroso e respeitoso, nada mais importa. O oposto ainda é mais verdadeiro: mesmo que um hotel tenha as melhores camas, tevês de tela plana de 30 polegadas, restaurantes com pratos de todo o mundo, etc., etc., se o atendimento não for bom, os hóspedes não ficarão satisfeitos. A verdade é que japonês gosta e paga para ser paparicado.

O bom atendimento consiste em fazer o hóspede sentir-se bem. Para conseguir fazer isso, é preciso transmitir um sentimento de hospitalidade do fundo do coração. Inclui-se aí o sorriso, o uso das palavras, os gestos, a compaixão e a prestatividade. São coisas que somente seres humanos são capazes de proporcionar e é isso que o hóspede espera. Eu demorei um monte para consegui entender e me acostumar com essa filosofia.

No início, eu achava muito difícil me oferecer para segurar as malas dos hóspedes que chegavam no hotel. Acontece que os japoneses não carregam muita bagagem. A maioria traz apenas uma mochila ou uma bolsa não muito pesadas. No Brasil, se, ao entrar num hotel os mensageiros se oferecessem para segurar a minha mochiila, eu acharia estranho e me sentiria até incomodado. Assim, aqui no Japão também, eu achava difícil de me oferecer para segurar as mochilas dos hóspedes porque achava que os estava incomodando. Bom, os hóspedes americanos, de fato, sentem-se assediados, porque eles acham que terão que pagar gorgeta (aqui no Japão não se paga gorgeta). Para os japoneses, é o contrário: eles estranhariam se ninguém se oferecesse para segurar a mochila ou mesmo a bolsa deles.

E assim é todo o resto. Para tudo aquilo que os hóspedes poderiam fazer por eles mesmos, haverá uma pessoa para fazer isso por eles. No hotel que eu trabalho não há máquinas de gelo, nem de refrigerante, nem de cigarro, nem nenhuma outra máquina de auto-atendimento. Todo o atendimento é feito por pessoas. Isso é alta classe.

A Capela

No Japão, todo hotel de alta classe que se prese tem também uma capela. Mas para que uma capela no hotel? Ainda mais no Japão, onde o povo não é cristão e liga muito pouco para religião? Na cabeça dos japoneses, um casamento, para ser chique tem que ser feito em hotel e a capela serve para realizar os casamentos. Não são casamentos cató”licos e nem de nenhuma grande religião, mas são casamentos em estilo cristão.

Casamento é um importante serviço prestado pelos hotéis. O mercado de casamento é tão grande que existem até locais especializados chamados de kekkonshikijo (結婚式場 – traduzindo litee ralmente fica: local para realizar casamento), onde há uma capela e um salão de banquetes muito semelhantes às dos hotéis. No hotel que eu trabalho chega-se a realizar mais de 10 casamentos no mesmo dia. um a cada meia hora!

O hotel oferece um serviço completo de casamento, vendido na forma de um pacote, que pode incluri desde o cabelereiro para noiva, aluguel de salas de espera para parentes, filmagem (muitas capelas têm câmeras instaladas em lugares estratégicos), fotografias, etc., até banquetes e o quarto para a noite de núpcias.

No Brasil, quando se fala em casamento, pensa-se em igreja. No Japão, casamento = hotel.

Hotéis de negócios (ビジネスホテル)

São hotéis menores, destinados a pessoas que buscam apenas um local para dormir em viagem de trabalho. Eu acho que o nível corresponde mais ou menos aos hotéis de 3 estrelas do Brasil. Ao contrário dos city hotels, os hotéis de negócios são caracterizados pelo pequeno número de funcionários, visto que a mão-de-obra tem um custo muito elevado no Japão. Esses hotéis geralmente não tem serviço de quarto, mensageiros e concierge. Alguns chegam ao extremo de substituir os funcionários da recepção por máquinas onde é possível fazer o check-in automaticamente. Da mesma forma, no saguão encontram-se máquinas de venda de cigarros, refrigerante, cerveja e até lámen e batata-frita. Em muitos casos, não local para tomar banho nos quartos; no máximo encontra-se apenas uma pia. Para tomar banho, nesse caso, os hóspedes vão ao daiyokujo (大浴場), um local onde há uma ou mais banheiras grandes, banquinhos e chuveirinhos, onde os hóspedes podem tomar banho no estilo japonês. Alguns hotéis de alta classe, especialmente os hotéis de turismo, também contam com um daiyokujo, mas não limitam os hóspedes a essa única opção.

Quanto à localização, os hotéis de negócios sempre ficam perto das principais estações de trem da cidade, o que, para os hóspedes significa uma economia de tempo e dinheiro. Não só os hotéis se localizam perto das estações, como muitos deles pertencem às grandes empresas administradoras das linhas de trem e de aviação doméstica. Os hotéis que não pertencem a empresas de transporte, na maioria fazem parte de alguma rede especializada em hotéis de negócios. Se, para os hotéis de alta classe, o que conta é o atendimento, para o hotéis de negócio, dois pontos são fundamentais (1) a localização e (2) o preço.

O preço fica em torno de 5 a 8 mil ienes por quarto simples (para 1 pessoa). É mais barato do que o preço do quarto mais simples em city hotéis, mas se a idéia é dividir o quarto com um colega, o city hotel pode sair mais barato do que o hotel de negócio. O que o city hotel não garante é a comodidade nos transportes e a disponibilidade de refeições baratas, como os cup lamen vendidos nas máquinas e sanduíches e biscoites vendidos em lojas de conveniência nas imediações ou dentro do próprio hotel. Num hotel de alto padrão, uma refeição simples não sai por muito menos de 2 mil ienes, ao passo que um cup lamen pode ser adquirido por menos de 300 ienes.

Hotéis-cápsulas (カプセルホテル)

Representam a evolução dos hotéis de negócios. Concentram-se em oferecer aquilo que os clientes de hotéis de negócio mais procuram: proximidade a estações, atendimento rápido e acima de tudo, preço baixo. Os usuários de hotéis de negócio procuram apenas um lugar para tomar um banho e dormir algumas horas.

Em troca do preço mais baixo, abre-se mão do espaço. Neste tipo de hotel, não há quartos. No lugar do quartos, há cápsulas, dentro das quais há apenas uma cama, uma tevê, um microondas e um frigobar. Para nós parece inaceitável, mas considerando as condições em que muitos japoneses vivem em apartamentos minúsculos de apenas um cômodo, uma cápsula de hotel pode ser mais confortável do que o seu próprio lar.

Eu acho que os hotéis-cápsula existem somente no Japão, estando ainda limitado às grandes cidades com Tóquio e Osaca. Por isso são considerados por muitos estrangeiros algo tão ineteressante quanto os castelos, templos e outras atrações turísticos, sendo inclusive objeto de reportagens em revistas e tevês ao redor do mundo. Assim, além de homens de negócios, os hotéis-cápsula também são freqüentados por turistas estrangeiros.

Saunas

Todo banho público moderno, academias de ginástica e spas no Japão contam com uma sauna. Entretanto, existem estabelecimentos chamados conhecidos pelo nome de sauna, que são uma espécie à parte. No Brasil, sauna pode significar um lugar com piscina, academia de ginástica e saunda, podendo contar com massagem e outros serviços de estética. Aqui esses lugares se chamam de kenkorando (健康ランド). Outra definição de sauna no Brasil é uma casa de sensualidade, como diria o Tiago Espírito Santo, onde também pode haver serviço de massagem especial. Aqui, esses lugares são chamados de sopurando (ソープランド). Então, afinal, o que vem a ser uma sauna no Japão?

Eu nunca entrei numa sauna, mas pelo que eu ouvi falar é um lugar destinado ao repouso, aberto 24 horas por dia. As saunas oferecem além de um local para tomar banho, camas onde se pode tirar um cochilo ou passar a noite. A diferença com relação aos hotéis é que não só o banheiro é comum (usado por todos), como também o é o quarto. Em vez de quartos ou cápsulas individuais, as saunas têm beliches (camas de dois andares) numa sala grande. Também não há serviço de quarto, afinal não há quartos, nem outros serviços típicos de hotel. Por outro lado, as saunas podem contar com uma sala de leitura, com coleções de mangás e sofás confortáveis onde também dá para tirar um cochilo.

Ryokan (旅館)

A palavra ryokan se traduz literalmente por prédio para viajantes, ou seja, é a palavra japonesa que significa hospedaria, ou hotel. Os hotéis como conhecemos, entretanto, são chamados de hoteru. Os ryokans são hospedarias em estilo japonês. Os quartos têm piso de tatami e, em vez de camas, à tardezinha, as camareiras estendem futons. Normalmente, os ryokans não contam com banheiros individuais para cada quarto. Há um daiyokujo onde todos tomam banho, contudo a qualidade do daiyokujo é muito superior à dos hotéis de negócios e não tem comparação com o que é oferecido nas saunas.

Os funcionários dos ryokans vestem roupas típicas e o atendimento é mais caloroso do que nos hotéis. Aqui em Quioto, nesse tipo de hospedaria, os funcionários falam em dialeto local. Não sei se o mesmo acontece em outras regiões do Japão, pois dependendo do lugar, se eles falarem em dialeto, hóspedes de outras regiões não entenderiam. O dialeto de Quioto, por outro lado, além de ser bem conhecido, permite o uso de linguagem de modéstia e de respeito, herança dos tempos em que a cidade foi a sede da Família Imperial. O uso do dialeto, ajuda a estabelecer a atmosfera de Japão tradicional que os clientes deste tipo de estabelecimento buscam.
Um ponto em que os ryokans se difereciam dos hotéis é nas refeições (jantar e desjejum), que geralmente estão incluídas na diária. Eu, particularmente, prefiro pagar menos e não precisar fazer as refeições no ryokan. Como eu estou dizendo, esses lugares se esmeram por proporcionar um ambiente japonês (não há outra palavra melhor para definir isso). Sendo assim, imaginem o tipo de comida que eles servem nesses lugares! Eu já passei fome por me recusar a comer sopa de polvo e outras coisas que eu não sei nem o nome nem o que tinha dentro. Para os japoneses, que gostam de comer coisas esquisitas, as refeições estão entre os pontos mais importantes na avaliação de um ryokan. É importante que o ryokan ofereça pratos típicos da região onde se encontra, feitos com ingredientes de alta qualidade.
Basta que uma hospedaria ofereça quartos de tatami para que seja chamada de ryokan. Todavia, assim como os hotéis podem ser classficados em vários tipos, também existem ryokans de negócios, ryokans de onsen, ryokans de turismo, etc. Os ryokans de negócios oferecem quartos individuais e estão localizados nas cidades, próximo às estações. Os ryokans de onsen tem como atração principal locais de banho com águas termais. A palavra onsen (温泉) significa águas termais (literalmente, poderia ser traduzido como fonte quente). Muitos onsens, no entanto, são artificiais (a água é aquecida artificialmente).

E, quando se fala em ryokan, a imagem é de uma hospedaria tradicional, localizada em um local relativamente afastado do centro da cidade, com uma bela paisagem, ótimas refeições e ótimo local de banho (daiyokujo). São essas as características que mais atraem os hóspedes.

Love hotel (ラブホテル)

Finalmente, o assunto que motivou este artigo. Os love hotéis são chamados de rabuhoteru, muitas vezes, abreviando-se para rabuho. Por vezes, utiliza-se a palavra hoteru, que é a pronúncia japonesa para a palavrahotel, ou seja, a distinção entre um hotel normal e um love hotel fica por conta do contexto. Por exemplo, se for para convidar uma moça para ir para um local desses, pode-se dizer: Hoteru ni itchau? (ホテルに行っちゃう?). A moça não terá nenhuma dúvida sobre o tipo de hotel que estamos falando.
Os love hotéis japoneses correspondem mais ou menos ao nosso conceito de motel, embora haja várias diferenças. Ao contrário dos motéis brasileiros, os love hotéis geralmente localizam-se nas áreas centrais das cidades, onde há vida noturna. Dependendo da cidade, há também áreas com uma concentração maior de love hotéis, embora não sejam propriamente bairros com vida noturna. Aqui em Quioto tem um lugar assim próximo ao Templo Heian (aquele que aparece no filme Encontros e desencontros). Tem um perto da minha casa também. Há muitos restaurantes no bairro onde eu moro…


Um love hotel com uma placa enorme anunciando
o valor do descanso: 2.500 ienes.

O prédio do love hotel pode lembrar um hotel de negócios, mas há alguns detalhes que não deixam dúvidas. Em primeiro lugar, os hotéis de negócio geralmente têm pelo menos uns 10 andares, enquanto os love hotéis têm no máximo 10. A entrada de um hotel de negócios é aberta, geralmente com uma porta de vidro, por onde pode-se enxergar o interior, e onde pode haver um porteiro. A entrada dos love hotéis é feita de modo que as pessoas possam entrar rapidamente sem serem vistas. Para isso, dependendo do lugar, eles colocam plantas ou põem uma parede na frente da entrada, de modo que se estiver apenas passando pela frente do prédio, não é possível enxergar a porta diretamente. As janelas dos love hotels são pequenas e de vidro espelhado ou fumê. Não há como enxergar de fora para dentro através daquelas janelas e não há como abri-las para colocar a cabeça pra fora. Os hotéis de negócios, por outro lado, têm janelas relativamente maiores, de vidros transparentes e às vezes até sacadas. Em muitos hotéis de negócios também não dá para abrir a janela o suficiente para colocar a cabeça para fora, mas o motivo aí é outro: prevenção de suicídios! Os administradores de hotel geralmente não gostam que os hóspedes pulem das janelas.

Dito isso, nem todos os love hotéis se parecem com hotéis normais. Por exemplo, muitos utilizam letreiros de neon, outros têm placas com letras garrafais anunciando os preços e serviços e há também os cuja arquitetura do prédio em si não deixa dúvidas. Agora, se entrar dentro, vai se deparar com um atendimento que acredito que não existem em nenhum outro lugar do mundo. Os love hotéis são planejados de forma que não o contato com funcionários e acima de tudo com outros clientes seja minimizado ao mínimo possível. Na entrada, em vez de um balcão de recepção, há um painel com fotos dos quartos. As fotos iluminadas são dos quartos disponíveis e as apagadas dos quartos ocupados. Basta apertar um botão próximo à foto do quarto escolhido e escolher o tempo de utilização e o check-in está feito, sem precisar falar com ninguém. Para maior comodidade, os clientes são guiados até os quartos, não por um mensageiro do hotel, mas por setas iluminadas indicando a direção a seguir. Basta ir seguindo as setas e chegará ao seu quarto sem nenhum problema. As chaves do quarto não são entregues no check-in. Em vez disso, o quarto já estará com a porta aberta esperando para ser adentrado.

O que tem dentro do quarto varia muito de lugar para lugar e de tipo de quarto dentro do mesmo hotel. Eu vi uma reportagem sobre um hotel desses em Osaca em que o quarto tinha dois andares. No primeiro andar, coisas normais de motel: cama, sofá, banheira de hidromassagem, etc. No segundo andar, um piscina, com um telão enorme para assistir filmes pornográficos enquanto se nada. Eu fiquei surpreso com o preço que eles anunciaram: 35 mil ienes por noite! Para quem não tem idéia do valor, basta comparar com o preço dos outros tipos de hotel. Um quarto minúsculo para duas pessoas, com duas camas, uma cômoda um banheiro simples e uma tevê, num hotel de negócios custa em torno de 8 mil ienes. Um quarto deluxe num city hotel, que é mais espaçoso, com camas mais confortáveis e uma decoração mais rebuscada do que o do hotel de negócios, não sai por menos de uns 30 mil, mas pode passar de 50 mil por noite! Ou seja, considerando a qualidade dos quartos, os love hotéis são absurdamente baratos.

Com essa discrepância toda no preço surge a questão de por que as pessoas não param em love hotéis em vez de hotéis comuns, mesmo que seja só para dormir. Eu acho que existe um motivo cultural. O japonês é não é um povo esperto. Os love hotéis são para fazer sexo e é para isso que eles vão lá. Além do mais, nos love hotéis não há liberdade para entrar e sair do prédio e o check-in geralmente é muito tarde. Enquanto nos hotéis normais o check-in inicia entre as 13 e 14 horas, num love hotel, é só depois das 22 horas. Num love hotel, não se pode pedir um ferro de passar roupa ou um conjunto de agulha e linha para pregar aquele botão que caiu da sua camisa social. Eu acho que esses detalhes são levados em consideração por grande parte dos japoneses.

Eu falei das várias formas que os love hotéis se esmeram por proteger a privacidade dos hóspedes, mas há um motivo, que talvez seja o mais decisivo para que as pessoas não utilizem os love hotéis como hospedarias normais. Acontece que esses estabelecimento somente aceitam casais, no sentido estrito e conservador da palavra. Ou seja, não se pode entrar sozinho num hotel desses. Também não se pode entrar acompanhado de um amigo do mesmo sexo. Eu tenho um amigo coreano que tentou entrar com um amigo e foi barrado (o meu amigo não é gay; eles só queriam ver como era um hotel desses por dentro). Amigos de sexos opostos, por outro lado, sentem-se constrangidos de parar num lugar desses. Mas eu comecei este parágrafo falando da privacidade. Como eu disse, no check-in não se vê nenhum funcionário nem nenhum outro hóspede do hotel. Por não ver, as pessoas acreditam que também não estão sendo vistas. Todavia, se assim fosse, então como eles poderiam barrar casais de 1 indivíduo e casais do mesmo sexo? Nunca ouvi falar, mas acredito que eles barrem também menores de idade.

Num hotel normal, a diária corresponde a um período que vai das 13 ou 14 horas de um dia às 11 ou 12 horas do dia seguinte. Nos love hotéis existem várias opções, começando o descanço, que corresponde a um período de utilização de 1 hora e meia a 3 horas, dependendo do estabelecimento. Pode haver preços promocionais para o uso durante as horas diurnas e há também uma opção mais cara de utilização somente durante as horas noturnas. O período de utilização também é selecionado através de um botão no painel de check-in. O pagamento é feito na saída, onde há um caixa humano dentro de uma sala com uma pequena abertura por onde se pode passar o dinheiro para o caixa e receber o troco, mas é impossível enxergar quem está lá dentro e muito menos ser visto por essa pessoa. Eu não tenho notícias, mas acredito que em muitos lugares, o pagamento deve ser feito em máquinas automáticas, eliminando o constrangimento de trocar palavras com o funcionário do caixa.

Gokon (合コン)

Gokon é uma palavra híbrida formada por um caractere chinês (合), que significa “combinar” e um fragmento em katakana (コン), que é a abreviação de (コンパ – konpa), que por sua vez vem da palavra inglesa “company”, que aqui no Japão tem o sentido de “reunião para beber e conversar”. Sendo assim, daria para traduzir esta palavra como “festa combinada”, sendo que aqui combinada se refere ao fato de que nos gokons necessariamente o número de homens é exatamente igual ao número de mulheres. Caso esse requesito não seja atendido, não teremos um gokon.

Os gokons são arranjados por um casal de amigos ou conhecidos. Por exemplo, eu posso combinar com uma amiga que ela irá convidar um certo número de amigas e eu convido o mesmo número de amigos. O número ideal é entre 4 e 5 de cada sexo. Escolhemos então um local para o encontro, geralmente uma izakaya (bar em estilo japonês). As izakayas são ideias porque proporcionam salas separadas para cada grupo de clientes, de forma que não são vistos pelos outros freqüentadores do local, permitindo que o grupo possa ficar mais à vontade. O casal que organiza o gokon fica responsável pela reserva do local, contato com os outros participantes e cálculo e recolhimento do dinheiro.

Ao chegar ao local, todos sentam ao redor da mesa. A distribuição das cadeiras pode variar, mas pelo que eu vi até hoje, geralmente no início, sentam todos os homens de uma lado e todas as mulheres do outro e começam a beber e conversar, enquanto comem salgadinhos e outros tira-gostos como saladas, sushi, edamame, sashimi, yakitori, etc. (esses tira-gostos não são exclusividades de gokons, mas apenas o que geralmente é oferecido em izakayas). O objetivo é se conhecerem, ou melhor dizendo, os homens conhecerem as mulheres e vice-versa, já que tanto o grupo dos homens como o das mulheres já são amigos ou conhecidos entre si. No início, as conversas geralmente giram em torno do local de origem de cada um, do seu trabalho, gostos para música e comida, etc.

Depois de um certo tempo, os organizadores convidam todos a trocarem de lugar, até que todos tenham a oportunidade de conversar com todos. Com o consumo de álcool, os assuntos podem ir mudando, e podem acontecer declarações de amor à primeira vista, discussões e desagravos, principalmente entre os homens, etc. Nessas horas também, é comum organizar algumas brincadeiras. Vou descrever duas dessas aqui:

Brincadeira do rei
O organizador escreve números numa das ponta de hashis (pausinhos de comer). Em um desses hashis, ele escreve “rei”. O organizador segura então os hashis de modo que a ponta que onde ele escreveu não fique visível e pede a cada participante que escolha um. Quem pegar o que estava escrito “rei” tem o direito de emitir uma ordem do tipo: “O rei manda o número 1 fazer ··· com/para o número 5.” Parece (e é) brincadeira de crianças, a não ser pela diferença no tipo de ordem que o rei dos gokons é capaz de dar. Por exemplo: “O rei manda o número 4 dar um beijo de língua no número 3”!
Brincadeira do pocky
Pocky é um biscoito em forma de bastão com cobertura de caramelo ou chocolate ou outra coisa doce. Se fosse no Brasil, esta brincadeira se chamaria “brincadeira do plic-plac”. A brincadeira é simples: um casal tem que comer um pocky, cada um começando por uma ponta. Não pode deixar o pocky cair, mas quase todos acabam derrubando, por isso ganha o casal que deixar cair o menor pedaço. Embora a idéia seja comer até o fim, sem se tocar, o normal é que, se o casal se propor a comer até o fim, acaba por se beijar na boca! heheheh

O tempo que podem passar na izakaya geralmente é limitado a umas duas horas. Depois disso, o grupo segue para algum outro local, sendo o karaoke o destino mais comum. A hora do trânsito entre um local é outro é uma boa oportunidade para conversar mais reservadamente e trocar telefones. Deve-se ter muito cuidado com a hora exata de pedir o telefone da moça, porque as japonesas não se sentem bem em dar o telefone da frente de todo mundo.

Como segundo local, escolhe-se um lugar em que se possa ficar mais tempo, pelo menos até pouco antes do horário do último trem, que é quando o gokon acaba, pois as moças têm que voltar para casa e se perderem o último trem, terão que esperar até depois das 5h da manhã, quando novamente os trens começam a circular. Nesta hora, há mais uma oportunidade para se conversar a sós, ao acompanhar a moça até a estação.

Outros detalhes

Em primeiro lugar, uma coisa que se fala muito é que você deve ter muito cuidado com a escolha da conhecida para quem vai propôr o gokon. A regra básica é: a moça sempre vai escolher amigas mais feias dos que ela, pois o gokon é uma espécie de competição para impressionar os rapazes (e quem sabe conseguir um namorado). Mas nem sempre ela pode escolher, pois ela tem a responsabilidade de juntar um número definido de amigas que estejam dispostas a participar do gokon e que não tenham compromisso no dia marcado. Esse esforço pode significar que ela convidará amigas mais bonitas e interessantes que ela, mas geralmente significa que ela trará algumas moças abaixo do nível que ela mesma considera ideal. Entre os rapazes, acontece o mesmo, e pode acabar vindo uns caras muito esquisitos.

Isso faz com que o gokon se torne uma coisa bem democrática. Mesmo que você seja feio ou esquisito, poderá ser convidado por um conhecido para completar o número de participantes.

Em gokon, há uma etiqueta a ser respeitada. É de muito mal gosto partipar de um gokon e ficar quieto sem falar nada. Há que se fazer um esforço. Mesmo que não encontre ninguém que o interesse, deve conversar com todo mundo e se possível trocar telefones, pois essa moça não interessante é um contacto que pode trazer outras moças mais interessantes. Portanto, mesmo que o casal não tenha se acertado muito bem, trocam o telefone para combinar um próximo gokon com outro grupo.

O objetivo dos gokons é arranjar namoro, mas raramente você vai encontra alguém interessante e que se interesse por você no primeiro gokon. Por isso, muitos japoneses, principalmente universitários, chegam a participar de mais de um gokon por semana. Alguns até publicam o seu ”diário“ de gokons na internet.

Por que os japoneses fazem gokon?

Embora no Brasil, nós possamos imaginar esse tipo de econtro e até praticá-lo, não acho que se difundiria tanto como aqui. É que os brasileiros têm outras formas de encontrar uma namorada. Nós vamos a bares e boates e puxamos conversa com moças para quem não fomos formalmente apresentados, ”ficamos“ e, se der certo, namoramos. Mesmo quem não sai muito à noite, sempre tem uma amiga, uma colega de trabalho ou de aula, por quem pode se interessar e com quem pode namorar.

No Japão tudo isso é mais difícil. Primeiro, não há tantos bares e boates como há no Brasil e, os japoneses quando vão a esses lugares, é para beber e/ou dançar. Embora seja possível puxar conversa com desconhecidos (e isso acontece), é muito difícil de ficar com uma japonesa deste jeito. A não ser, é claro, que você tenha uma ferrari, muito dinheiro, etc. Neste aspecto, as mulheres são iguais em todo o mundo. Namorar com colegas de trabalho ou de aula no Japão é muito complicado, pois o povo aqui fofoca demais. No trabalho, principalmente, se houver uma relação hierárquica entre o casal, a coisa complica mais ainda. Acontece de colegas namorarem, mas o fazem com a maior discrição e no mais estrito segredo. Tanto é assim que eu já presenciei dois casos na universidade e um caso no trabalho de casais que namoravam em segredo e nunca ninguém desconfiou. De repente, eles anunciaram que iam se casar!

No Japão, a venda de pílulas anti-concepcionais é controlada e é necessário conseguir uma receita médica para adquiri-las. Portanto, se as japonesas solteiras quiserem comprar pílulas, terão que confessar para o médico que querem dar com tranqüilamente. O que acontece é que elas não compram e, portanto, não usam pílulas. Como método anti-concepcional resta a camisinha. Essa sim, é vendida até em máquinas automáticas em banheiros públicos, pois muitos japoneses têm vergonha de comprá-las nas lojas de conveniência. A camisinha, entretanto, não é um método 100% garantido. Isso faz com que o sexo se torne uma coisa muito mais séria por aqui, pois o risco de gravidez é bem mais alto. Uma gravidez acidental redunda em casamento forçado (tem até uma palavra para isso: dekikon), que aliás é muito comum por aqui. Bom, eu disse tudo isso para explicar por que o namoro no Japão é uma coisa bem mais séria do que é no Brasil. Ou, em outras palavras os japoneses não ”ficam“.

Sob essas condições, fica mais fácil de enteder porque eles procuram conhecer pessoas fora do seu círculo de amizades e conhecidos para um namoro sério e o gokon é um oportunidade perfeita para isso. Mas o gokon não é apenas uma conveniência que se criou devido ao ambiente em que os japoneses vivem. O gokon, embora seja um tipo de atividade que não existe há muito tempo, é pura e autêntica cultura japonesa.

O gokon, é um encontro para conversas informais, com o objetivo de conhecer gente nova com o intuito final de encontrar alguém para namorar. Mas o gokon não é exatamente um econtro informal (pelo menos para os nossos padrões), afinal há um protocolo a ser seguido. Começa pelo fato de que o encontro tem que ser planejado com pelo menos duas semanas de antecedência. Se a pessoa não puder ir, então deve se responsabilizar por mandar alguém no seu lugar para não estragar o encontro dos outros. Durante o encontro em si, há regras a serem seguidas. As brincadeiras picantes e as declarações de amor à primeira vista que eu citei não são exceções, pois só se faz isso quando todos estão (mesmo que supostamente) alcoolizados. Não estou dizendo que por se estar alcoolizado, o desrespeito à etiqueta é permitindo, mas ao contrário, a etiqueta manda que todos divirtam e divirtam os outros e também que esqueçam qualquer acontecimento constrangedor que tenha se passado quando estavam sob o efeito do álcool.

Futon de casal

Nas residências japonesas tradicionais, não há camas. No lugar delas, os japoneses estendem uma espécie de colchão chamado futon sobre o tatami e dormem ali. Quando acordam de manhã, recolhem os futons e guardam-nos no oshiire (armário). O kotatsu (pequena mesinha com aquecimento para os pés), que havia sido posto num canto à noite, é colocado no centro da sala e os zabutons (almofadas) são distribuídos ao redor do kotatsu. Pronto: o que à noite era quarto de dormir, pela manhã transformou-se em sala de estar.

As casas mais antigas têm várias peças que servem como quartos de dormir separadas por finas portas de correr feitas madeira com “vidros” de papel, para passar a luz. Basta abrir essas portas, para que o conjunto de todos os quartos se converta numa espaçosa sala de estar. Para cada uma dessas salas há um acesso a partir do corredor e outro a partir da sala visinha. Dessa forma, se todas as portas forem abertas, teremos uma grande sala com várias saídas para o corredor, muito bem arejada e iluminada.

Alguém pode pensar que as casas antigas têm essa configuração por causa da falta de espaço no país como um todo, mas lembrem-se que eu estou falando das casas antigas, de um tempo em que o Japão não era suporpovoado como é hoje. Em outras palavras, a arquitetura das residências antigas deriva de outros elementos inerentes à cultura japonesa, os quais, infelizmente, eu não sei quais são. E, se o motivo fosse realmente a falta de espaço, não haveria como explicar o fato de que cada vez mais os novos apartamentos e casas são construídos em estilo ocidental: com um quarto de dormir com cama separado da sala de estar, onde há sofás e uma mesa de jantar. Até mesmo em apartamentos pequenos, de uma peça só, muitos japoneses colocam ali uma cama, mesmo sobre o tatami.

Embora, como dito acima, o motivo principal para a utilização de futons em vez de camas não seja a limitação no espaço, esse costume vem a calhar quando de fato essa situação se apresenta. Eu tenho um amigo que sempre diz que a família dele é pobre. É uma família de 4 pessoas e hoje eles moram em 3 apartamentos de 1 peça cada um, mas antigamente, moravam todos em 1 apartamento de e 1 paça. O meu amigo sempre falava que quando estava no ginásio, sentia-se prejudicado em seus estudos porque simplesmente não tinha espaço para fazer os deveres de casa. Ele conta que fazia os deveres numa mesinha que ficava num canto, mas que não podia estender as pernas nem se mexer muito para não bater na cabeça do seu pai que estava dormindo a poucos centímetros dali. Ou seja, quando eles estendiam os 4 futons, não sobrava nenhum espaço livre no apartamento. Deitavam-se sempre na mesma posição: o pai, a mãe, o irmão mais velho e o meu amigo.

Futons estendidos sobre o tatami.

Nesse caso, todos dormiam na mesma peça. Eu imagino que se houvesse duas peças no apartamento, os pais dormiriam numa peça e os filhos na outra, mas não tenho certeza. Cada um, no entanto terá o seu futon, inclusive o pai e a mãe. Não existe futon de casal. Eu também não acharia estranho se o pai dormisse numa peça e a mãe noutra, afinal, os futons foram feitos para dormir. Eu nunca entrei numa residência japonesa à noite, quando todos estão preparados para dormir, e duvido que eles permitam que alguém entre lá nessa hora, mas pelo que eu vejo em filmes e novelas é assim mesmo.

Na nossa cultura, por outro lado, um casal casado deve dormir em cama de casal. Só não fazem isso quando estão de mal, já pensando em se separar, ou depois de velhos, quando um ronca muito, por exemplo. Pensando bem, o motivo dos casais casados dormirem na mesma cama é que eles fazem sexo. Quando não dormem na mesma cama é porque não querem mais fazer sexo (porque estão brigados, ou porque estão velhos e cansados, etc.). Se é assim, então será que os casais japoneses que dormem em futons separados não fazem sexo? Pelo que eu vejo em filmes, o sistema é o seguinte: o marido visita o futon da mulher, faz o que tem que fazer e volta dormir no seu. Não me perguntem como faziam os pais do meu amigo que dormiam todos na mesma peça!

É interessante como essa cultura sobrevive, mesmo dentro da arquitetura moderna ocidentalizada. No hotel em que eu trabalho, até alguns anos atrás, havia pouquíssimos quartos com camas de casal. Eu sempre achei estranho que os casais japoneses não se queixavam de dormir em camas de solteiro separadas. Só depois de muito tempo é que eu fiz essa relação e entendi o que se passava. Eles realmente não fazem questão de camas de casal e/ou até preferem as camas de solteiro. Isso no caso de casais apenas. Quando vêm em famílias, o normal é o pai ficar num quarto com os filhos homens e a mãe ficar em outro quarto com as filhas mulheres ou filhos mais novos. Japonês nunca coloca as crianças sozinhas num quarto separado. Os ocidentais fazem exatamente o contrário: o casal fica num quarto e os filhos, independente do sexo e da idade, ficam em outro, sendo esse muitas vezes, de uma categoria inferior (o meu pai faria isso, com certeza). De uns anos para cá, com a mudança na administração do hotel, aumentou muito a quantidade de hóspedes estrangeiros, e, conseqüentemente, o número de reclamações por causa da falta de quartos de casal. Assim, eles tiveram que aumentar o número de quartos com camas de casal para atender os hóspedes ocidentais. Até mesmo “casais” gays fazem questão da cama de casal!

Uma vez eu fui junto com uma gerente do hotel atender uma queixa de um hóspede americano. O caso era que, quando ele fez a reserva, pediu dois quartos, um ao lado do outro, interligados. Tratava-se de uma família com um casal de filhos pequenos e, no dia, não havia muitos quartos disponíveis, por isso acabaram oferencendo para ele dois quartos, um de frente para o outro. Se fosse um hóspede japonês, não haveria maiores problemas, pois a mãe iria dormir num quarto com o filhos menor e o pai no outro com o filho maior. A gerente ofereceu como compensação os dois quartos pelo preço de um, mas isso não resolvia o problema, pois as crianças eram muito pequenas para dormirem sozinhas num quarto. O americano queria que puséssemos mais uma cama num dos quartos, mas não havia espaço para isso. No final das contas, ele pediu apenas uns endredons para que ele pudesse dormir no chão!

A gerente saiu muito frustrada e não entendendo o que aconteceu, pois na cabeça japonesa dela, tudo estaria resolvido se o casal dormisse separado, cada um com um filho, que é o usual por aqui. O hóspede americano ficou insultado com a instransigência da gerente. E acho que só eu entendi que essa era apenas uma questão de choque cultural. Infelizmente não havia clima para tentar explicar isso nem para o hóspede nem para a gerente. Acho até que mesmo que eu tentasse explicar, nenhum dos dois me entenderia, afinal eu teria que explicar para eles tudo o que eu escrevi neste artigo.

Bolo é coisa de mulher!

Fazia tempo que eu não me espantava com nada no Japão. Já estou tão acostumado que, pelo contrário, me espanto e até me indigno quando as coisas não são feitas ao modo japonês. Não que eu tenha me tornado japonês. Ainda sei ser brasileiro, mas no Japão eu quero que as coisas sejam feitas do modo japonês.

Eu passei um bom tempo da minha vida aqui me alimentando de sanduíches e outras coisas encontradas nas lojas de conveniência. Só comia comida de verdade quando almoçava no restaurante da universidade ou no trabalho. Eu quase sempre compro a mesma coisa. Teve época que eu sempre comprava karaage (umas bolinhas de frango frito), até que eu enjoei. Depois, sanduíche de frango defumado e assim por diante. Ultimamente, eu sempre compro torta de maçã e café com leite.

Mas, de vez em quando, eu dou uma olhada nas prateleiras da loja para escolher alguma coisa diferente. Numa dessas vezes, eu fui na parte dos refrigerados, onde tem pudim, iogurte, salada de frutas, danish (um coiso que parece um pão com creme por dentro), etc. Ali também sempre tem bolos e tortas, que vêm numa bandejinha com a tampa transparente. Os bolos japoneses, como quase tudo o que é de comer, são muito bonitos. Dá mais vontade de olhar do que comer, mesmo porque os doces japoneses nunca são muito doces. Porém, nesse dia me deu vontade de experimentar o bolo de chocolate.

Botei na minha cestinha e fui até o caixa, paguei e voltei pra casa. Quando cheguei em casa, notei que o cara do caixa tinha colocado dois garfinhos descartáveis para comer a torta. Normalmente, não precisa pedir: se você comprar um iogurte, eles colocam uma colherzinha; se comprar lamen, ganha um hashi; se comprar frango assado, ganha um garfinho igual ao do bolo (mas eu sempre peço para trocar por hashi). Naquele dia pensei que ele tinha se enganado e puxado dois garfinhos de uma vez só. Ou, quem sabe, pensou que eu ia comer o bolo em duas vezes (na verdade, todos os bolos das lojas de conveniência vêm com duas fatias na bandejinha). São duas fatias, mas não é uma quantidade tão grande assim. Sempre quando eu compro, como as duas logo de uma vez.

Para a minha surpresa, o bolo não estava tão sem gosto como eu imaginava. Não sei se é porque eu me acostumei com o gosto japonês para bolos ou se os bolos de loja de conveniência são mesmo mais gostosos. Até então, a minha experiência com bolos no japão se resumia a festas de aniversário de estrangeiros.

Na próxima vez que eu fui comprar bolo, eu prestei atenção quando o cara foi colocar o garfinho no saco. Eu já acho um desperdício usar o garfo e jogar fora, imagine ganhar dois e jogar um fora sem nem abrir o plástico! É só para aumentar a quantidade de lixo. Quando o cara foi colocar os dois garfinhos, enquanto anunciava o total da compra, eu disse: um garfinho basta. Nas lojas japonesas, os caixas falam o tempo todo; eles dizem em voz alta o valor de cada item enquanto marcam na registradora. Eu alguns casos, eles falam até o nome do produto e, no final, o total. Quando a agente paga, eles dizem “recebi tanto” e quando devolvem o troco: “devolvo tanto de troco”. A minha pergunta quebrou o ritmo da fala do cara. Ele parou, olhou para a minha cara e confirmou: ”Um garfo?“ Eu disse ”Sim“. Ele não discutiu e me deu só um garfo.

Eu voltei pra casa naquele dia pensando que o cara devia achar que eu ia dividir o bolo com alguém, quem sabe uma namorada. Como japonês não come muito doce, será que ele estava pensando que era muito bolo para uma pessoa comer sozinha? Ficou por isso mesmo…

Na vez seguinte, quem me atendeu foi uma moça que trabalha lá há muitos anos. Eu moro no mesmo lugar há mais de 4 anos e vou quase todos os dias naquela loja de conveniência. Por isso, já tinha certa intimidade com a moça. Eu sempre converso um pouco com ela quando vou lá. Ela, a exemplo do cara de outro dia, ia colocar dois garfinhos no saco. Eu disse: “um garfinho chega.”. Ela sorriu e disse: “Ah, vai comer o bolo sozinho? Não precisa ficar com vergonha. Tem um outro cara que compra aqui também e ele também come sozinho, afinal tem homens que gostam de bolo também!” Aí, eu entendi! No Japão, homem só pode comprar bolo se for para comer com a namorada. Essa também foi a última vez que eu comprei bolo em loja de conveniência. Agora tenho vergonha!

Interessante nisso tudo é que bolo é doce, portanto engorda. As brasileiras tendem a evitar doces com medo de engordar e, por isso, eu acho que no Brasil é mais comum homens admitirem que gostam de bolo do que as mulheres, embora não haja nenhuma regra com relação a isso. Eu sempre gostei de bolo desde criancinha. Mas, fica uma questão: “Como é que as japonesas que gostam e comem bolo são tão magrinhas?” Além disso, a sociedade aqui é muito mais severa com as gordas (e os gordos também). Até os homens aqui fazem regime para perder alguns poucos quilos.

A resposta para essa pergunta, eu infiro do que eu vejo no restaurante da universidade. Lá sempre tem umas moças que comem sorvete. Elas sentam na mesa e ficam lambendo aqueles sorvetes lentamente e não comem mais nada. Elas almoçam sorvete. Deve ter moças que almoçam bolo também. E quem sabe não comem mais nada durante o resto do dia.

Pensando agora, eu lembrei que já tinha percebido que eram sempre mulheres que compravam bolo na loja de conveniência. Elas olhavam para a bandejinha e colocavam na cestinha… eu sempre tive a impressão que elas estavam com muita fome quando compravam, pelo jeito que elas olhavam a bandejinha. Outro dia, eu perguntei para uma amiga minha por que as mulheres japonesas gostam tanto de bolo. Ela disse que é porque é bonito! Ouvindo isso, fez um pouco de sentido para mim o jeito que elas olhavam para o bolo. Que as mulheres japonesas gostam de bolo e de sorvete, eu já tinha consciência há alguns anos, mas foi só recentemente que eu aprendi o quanto é vergonhoso para um homem admitir que está comprando um bolo para comer sozinho. Foi um choque!

O Natal no Japão

Falar sobre o Natal no Japão e falar sobre nada é quase a mesma coisa. Como em todos os países não-anti-cristãos, aqui também tem decoração de Natal no comércio, além do movimento que também aumenta nos dias que antecedem o Natal.

Um dos lugares mais famosos do Japão pela decoração de Natal é Kobe. Kobe é uma cidade portuária, onde sempre teve muito intercâmbio com o ocidente. Há lojas ocidentais lá com produtos europeus desde o início do século passado. Inclusive a padaria onde eu sempre compro o meu pão francês é de uma rede originária de Kobe. Kobe também é uma cidade conhecida por ter sido parcialmente destruída por um terremoto em 1995.

Como parte das ações para recuperar a cidade, foi criada a Kobe Luminarie, que é muito visitada na época do Natal. Eu nunca fui, mas já vi na tevê e em fotos e é muito bonita mesmo (aqui vai um link para a página da Kobe Luminarie). Além da Kobe Luminarie, outros lugares da cidade de Kobe também são belamente decorados. Aqui vão mais uns links [1] [2] [3].

Aqui em Quioto, obviamente, também há decoração de Natal, embora não seja tão famosa como a de Kobe, não deixa a desejar. Mas, como se fala muito no Brasil, o Natal não está só nos pinheirinhos e presépios (por falar nisso, nas decorações de Natal do Japão não tem presépios). Bom.. tem gente que fala que o Natal é uma festa religiosa em comemoração ao nascimento de Cristo, mas eu acho que mais do que isso é uma tradição. Afinal, quem vai na MIssa do Galo no Natal?

No Brasil, desde o início de dezembro há uma expectativa pela chegada do Natal. Eu também, quando estava no Brasil tinha grande expectativa por esta data. Para mim o Natal é feito de três coisas principais: (1) presentes, (2) encontrar parentes que moram longe e (3) a ceia de Natal, que contém muita coisa que só se come nessa data: peru (ou chester) assado, frutas em calda, panetone, etc. Ah! Adoro o Natal! O Natal é principalmente uma coisa das crianças porque é uma das melhores oportunidades do ano de ganhar brinquedos bons (=caros). Na tevê, as lojas e fábricas de brinquedo apelam para que os pais comprem brinquedos para seus filhos. Eu, particularmente, faço questão de ganhar brinquedo no Natal. Não quero roupa, não quero dinheiro, não quero outra coisa que não seja de brincar, mas fico sempre feliz com os presentes que ganho. Isso é o Natal!

No Japão não tem esse Natal que eu gosto. 25 de dezembro não é feriado. As pessoas trabalham normalmente no dia 24. As famílias não se reúnem. Além da decoração, nada muda. O Natal para ser Natal, precisa estar não só nas decorações das lojas, mas também dentro das pessoas. Isso não tem aqui. Por isso eu digo que o Natal no Japão é a mesma coisa que nada.

No primeiro ano que passei aqui, me reuni com outros estrangeiros para passar o Natal. Acho que foi o pior Natal da minha vida. Apesar de estar todo mundo se fazendo de feliz, sentia-se aquela frustração no ar por estar cada um longe da sua família. Nos natais seguintes, eu trabalhei em todos. Faço questão de trabalhar no Natal. Quero que o Natal seja um dia comum, igual a qualquer outro, porque afinal de contas é isso que é o Natal japonês.

Eu disse que tem decoração nas ruas e nas lojas e que o movimento aumenta. Se aqui não tem o Natal que a gente conhece, afinal para que o comércio apela no Natal? Bom… o Natal no Japão é o Dia dos Namorados! heheheh O movimento no comércio é principalmente nas lojas que vedem presentes para as namoradas. Até em lojas de jóias caras, é difícil de caminhar nessa época do ano. Para as criancinhas japonesas, coitadinhas, no máximo uma bala do Papai Noel. Só as mulheres ganham presentes bons no Natal. Além dos presentes, os namorados levam as namoradas no mínimo para jantar fora, mas o ideal é ir viajar e passar a noite de Natal num hotel. Se não der para viajar, então pode ser um hotel na cidade mesmo. O importante é que seja um lugar chique e ocidental. Para mim, que não tenho namorada, essa parte do Natal também é nada.

No hotel que eu trabalho, este ano pela primeira vez, com um gerente geral americano, teve uma decoração de Natal decente. Até este ano, o que tinha era uma árvore de natal estilizada feita dos restos de uns lustres de um salão de conferências antigo. Eu gostava mais daquela decoração discreta e fiquei indignado quando vi os caras montando a decoração pomposa deste ano, em pleno 15 de novembro!!! Na madrugada de 25 para 26 de dezembro, foi com satisfação que eu ajudei a desmontar aqueles pinheirinhos, papais noéis, luzinhas… Puxa, como ficou melhor sem aquele peso todo daquela decoração sem sentido!

No Natal do Japão, como as famílias não se reúnem, também não tem ceia de Natal, mas tem a comida típica desse dia: frango frito. Na maioria dos casos, não é um frango inteiro como nós fazemos. É frango frito mesmo, do Kentucky Fried Chicken. Desde o meio de novembro, o KFC japonês aceita encomendas para o dia do Natal. O frango do Natal japonês está mais para o nosso peixe da Sexta-feira Santa do que para o peru de Natal. O ideal é que seja frango frito, mas vale qualquer coisa. Por exemplo, se for no McDonald’s nesse dia, em vez de pedir o Big Mac de sempre, pede um Mac Chicken.

Eu, obviamente não podia deixar de comer o meu frango assado no Natal. Comprei uma coxa-e-sobre-coxa no mercado e fritei em casa. Ficou bom! Comi e fui trabalhar. Foi mais um feliz não-Natal que eu passei no Japão.

O lado japonês da guerra

Numa comunidade do Orkut, foi perguntado sobre a relação entre as bombas de Hiroshima e Nagasaki e a Guerra Fria. Eu me interessei e fiz uma pesquisa na internet para responder a pergunta. A minha resposta está lá (na comunidade). Aqui escrevo a minha impressão sobre o lado japonês da guerra, baseado no que eu li e no que eu vejo no dia-a-dia.

Em alguns sites japoneses que eu li, eles acusam Truman de criminoso de guerra pelos ataques indiscriminados a Tóquio com bombas incendiárias (aproveitando o fato de que as casas dos japoneses eram feitas de madeira e de papel, ou seja, o alvo eram os civis) e pelas bombas atômicas, que poderiam ser evitadas se Truman não tivesse alterado os termos de rendição.

Eu li um relato de uma japonesa que até hoje sofre com os efeitos da radiação, dizendo que a Cruz Vermelha e outras ajudas humanitárias foram proibidas de entrar em Hiroshima e Nagasaki. Diz ela que os americanos, ao contrário do que dizem, não tratavam os feridos. Em vez disso, simplesmente tiravam amostras de sangue e faziam anotações. Diz que eles simplesmente observavam as pessoas morrendo e registravam as observações, mas não faziam nada para ajudar. Aqui fica um indício que eles tinham também o objetivo de “experimentar a nova arma”. Aliás, essa japonesa diz que aquilo não era ajuda humanitária, mas um grande experimento com cobaias humanas.

Num outro lugar, eu li que, depois da guerra, o mesmo centro de pesquisa sobre os efeitos da radiação, que trabalhava durante a guerra, alguns anos depois fez um experimento com flúor. Eles colocaram pequenas quantidades de flúor na água que abastecia uma cidade nos Estados Unidos para saber se não fazia mal e se não se acumulava no corpo. Lá também eles tiravam amostras de sangue e de placenta da população. Foi graças a esse experimento que demonstrou que as pequenas quantidades de flúor diminuíam a incidência de cárie, que hoje na nossa água também é colocado flúor.

Os americanos, por outro lado, acham que fizeram um bem ao Japão, por terem abreviado a guerra, “salvando” um monte de vidas que seriam perdidas nas batalhas, além de promoverem a democratização e o desenvolvimento econômico do Japão. Quem sentiu, literalmente na pele, os efeitos da bomba atômica, não consegue aceitar o “lado bom”, afinal a bomba atômica poderia ter sido evitada.

O que mais me espanta, é que todos os japoneses que eu conheço (e eu conheço alguns!), não odeiam os Estados Unidos por causa das bombas atômicas. Eles amam a paz (e se orgulham disso) e odeiam a bomba (mas não o país e o homem que mandou jogar elas aqui). Hoje, parece que eles culpam o Imperador por tudo e se envergonham de ter perdido a guerra. Nem parece o mesmo país dos pilotos kamikaze!

Dizem que os japoneses da época da guerra eram fanáticos e consideravam o Imperador um semi-deus. O que eu sinto hoje, principalmente dos japoneses mais jovens, é um desprezo pelo Imperador e por todos os nobres do Japão. Parece que, quando se fala no Imperador, eles fazem questão de dizer: “o Imperador é uma pessoa comum e não manda em nada. Ele é só um símbolo.”

Se perguntar a eles sobre patriotismo, eles respondem: “os japoneses não são patriotas. Eu não sinto nada pelo Japão.” Esse ponto eu acho interessante, porque eles dizem isso só com a boca, mas não deixam de dizer. Religião: no festival de o-bon são todos budistas; no ano novo são todos xintoístas; durante o resto do ano são todos ateus. Parece que sofreram uma lavagem cerebral!

Eu fui procurar sobre isso na internet e descobri um tal de War Guilt Information Program, que foi instituído durante a ocupação do Japão pelo exército americano. Os militares deixaram o governo, mas permaneceram a Constituição, as leis e os livros-textos criados ou alterados de acordo com as suas ordens.

Encontrei uma transcrição de um diálogo entre dois escritores japoneses. Um deles diz que era criança nessa época. Ele conta que foi levado pelo professor ao cinema para assistir um filme com imagens da guerra. Nesse filme aparece um avião kamikaze sendo abatido. Quando apareceu essa imagem, diz que o professor começou a bater palmas e mandou os alunos baterem palmas também.

O outro diz que foi ensinado que “o Japão não ganhou nada”, “que ele tinha ‘consciência’ de que os brancos eram superiores e os japoneses inferiores, que não tinham capacidade.” Além disso, não existia quem criticasse o governo militar ou quem dissesse que havia algum militar japonês bom. “Ensinaram-me que o Tojo é do mal”, diz ele.

Ambos falam sobre um programa de rádio chamado “a caixa da verdade”, que substituiu um outro programa da rádio NHK que, no mesmo horário dava notícias sobre a guerra antes da rendição. Nesse programa, perguntas eram feitas e respondidas. Por exemplo “Qual é a verdade sobre o ataque japonês a Nanquim? – A verdade é que 20 mil mulheres foram assassinadas.” Contam eles, que como o locutor era japonês e falava de “nós”, eles não percebiam que o programa era controlado pelos americanos. Parecia-lhes que era a própria verdade dita por outro japonês.

Sobre a censura ao correio, um deles conta a história de um homem comum que mandou uma carta a um conhecido dizendo que tinha sido baleado pelos militares (americanos) e estava ferido. Esse homem foi processado por calúnia e difamação das forças de ocupação. Segundo as investigações, esse homem inventou e usou essa história para recusar a visita de um conhecido (japonês não sabe dizer não…) Mas, como os registros dos julgamentos do período de ocupação ainda não foram abertos, não há como saber qual é a verdade.

Não é assunto deste artigo, mas eu tenho que mencionar também que nesse diálogo, os dois falam o Japão não foi a única vítima de lavagem cerebral, nem os Estados Unidos o único a utilizar essa técnica. Afirmam que na Inglaterra também foi usada pela BBC e que o movimento contra a Guerra do Vietnã foi produto de lavagem cerebral orquestrada pela KGB. Comparando as técnicas utilizadas pelos americanos no Japão com as utilizadas pelos países comunistas, afirmam que é totalmente diferente. A técnica americana é “livre”, ao passo que a comunista envolve tortura e ameaças.

O Partido Comunista da China fazia lavagem cerebral nos prisioneiros japoneses, dizem eles. Os procedimentos eram repetidos até que os prisioneiros passassem a defender as idéias socialistas. Quando obtinham sucesso, mandavam o prisioneiro de volta para o Japão para trabalhar em favor da China nas frentes de batalha japonesas.


Já nos meus primeiros meses aqui no Japão, eu me intrigava com a nulidade do sentimento patriótico do japonês. Eu tinha uma admiração pelo Japão e uma compaixão pelo povo japonês que lutou tão bravamente, embora tenha terminado derrotado. Eu achava que os japoneses deveriam ter um forte ressentimento com relação aos Estados Unidos, por terem sido o único país do mundo onde a bomba atômica foi usada.

Agora, eu não sei até que ponto que essa admiração toda não é fruto de algum tipo de lavagem cerebral anti-americana que eu sofri. Não culpo as minhas professoras de história. Elas eram ótimas e se limitavam a ensinar a matéria e a pensar sobre a história. Não tive professoras de história que fizessem pregação ideológica em sala de aula. Mas o anti-americanismo no Brasil não está só dentro da sala de aula.

Outra fonte da minha admiração é dos meus conhecidos descendentes de japonês no Brasil. Eu tinha um colega descendente de japonês que não tinha vergonha de dizer que era racista. Éramos muito amigos, até porque eu também sou racista e não tenho vergonha de dizer isso. Mas, vejam bem, não confundam racismo com discriminação racial. Se eu discriminasse as pessoas pela raça, jamais teria feito amizade com um descendente de japonês! Discriminação racial é ignorância. Racismo é gostar e se orgulhar da sua própria raça. Só isso. Infelizmente, quem já é um produto de algum cruzamento entre raças não consegue entender isso. Eles não podem ser racistas…

Mas, chegando aqui no Japão, eu fiquei chocado com o que eles me diziam: “japonês não é patriota, nós não sentimos nada pelo Japão”; “japonês admira os ocidentais”; “o Imperador é uma pessoa comum, ele não manda em nada, é apenas um símbolo” “o Japão está atrasado em relação aos Estados Unidos”, etc. Isso me deixou até entristecido. Será que aquele Japão que eu admirava morreu?

Por outro lado, é impressionante como as respostas para perguntas sobre os assuntos acima vêm sempre nas mesmas palavras, independente de para quem se pergunte. É como se fosse um mantra decorado. Mais tarde eu percebi que era isso mesmo: apenas palavras. Mas são palavras, que repetidas muitas vezes, controlam o pensamento deles, de maneira muito semelhante àquela que aparece no livro Admirável Mundo Novo de Huxley. Embora eles digam coisas e pensem balisados por essas frases repetidas, eu percebo que eles não sentem isso. Ou seja, o pensamento deles é artificial!

Essa é uma teoria minha, que eu baseio no seguinte: se você perguntar para um japonês se ele é patriota, a resposta vai ser, invariavelmente, “Japonês não é patriota. Nós não sentimos nada pelo Japão”. Mas, se mudar as perguntas, as resposta não condizem com essa frase. Por exemplo: “Você gostaria de morar em outro país?”. Aí se ouve: “Não. Eu gosto daqui. Não tenho vontade de ir ao exterior nem a turismo. Prefiro fazer turismo dentro do Japão mesmo”. Claro que nem todos pensam igual…

“Japonês admira os ocidentais?” Eu tenho um amigo que se queixava muito de algumas coisas, que sabia que eram inerentes à cultura japonesa, mas ele não tinha essa consciência. Eu dizia pra ele: “Esse teu modo de pensar é ocidental. Porque você não vai morar na França (ele sabia um pouco de francês). Você vai ser mais feliz lá.” Depois de algum tempo, ele simplesmente parou de se queixar. Ele não quer ir morar na França, nem na Inglaterra, nem em qualquer outro lugar do mundo. Ele ama o Japão, mas não tem (ou não tinha) consciência disso. Achei muito engraçado outro dia que um americano perguntou para ele, mostrando uma moeda de cinco ienes, o que é isso? Obviamente o americano se referia ao furo que tem no meio das moedas. Ele entendeu, mas safadamente, se fez de desentendido e respondeu: ”essa é uma moeda de cinco ienes“. Ora, para os japoneses é natural que as moedas de cinco ienes sejam furadas!

Pergunte aos japoneses(as) se eles(as) acham algum(a) ocidental bonito(a). Eles usam palavras diferentes para descrever a beleza oriental e a beleza ocidental! Pergunte se eles(as) casariam com um(a) americano(a). “Nunca pensei nisso, mas eu prefiro os(as) japoneses(as)”. Ou seja, eles são racistas! São racistas e eu os admiro por causa disso. São racistas, mas eu nunca fui “vítima” (que palavra hein!) de discriminação racial no Japão, pelo contrário, sempre fui respeitado, narigudo e branco, do jeito que eu sou.

Quanto à guerra, parece que a coisa é mais profunda: os japoneses genuinamente amam a paz e odeiam a guerra. Mas baseiam isso em frases prontas: “A guerra foi um erro. O Imperador fez mal ao Japão. Os soldados japoneses cometeram muitas crueldades nos outros países da Ásia e nós sofremos as conseqüências até hoje.” Até parece que foi o Imperador que subiu num avião, incendiou Tóquio e jogou duas bombas atômicas no país!

Eles estudam a história e sabem das causas da guerra, mas parece que esse sentimento de desprezo pelo Imperador é maior do que os fatos históricos. A Ásia estava dominada e disputada entre países europeus: França, Inglaterra, Alemanha, Espanha e até Portugal tirou a sua lasquinha. O Japão estava realmente em perigo, correndo até o risco de ser invadido por uma potência européia se não partisse para o ataque. (Eu tenho que estudar melhor essa parte, mas pelo menos é essa a impressão que eu tenho). A expansão do Japão pela Ásia é bem diferente do imperialismo europeu e não tem nada a ver com a expansão da Alemanha e da Rússia! Imaginem se fosse o contrário. Imaginem se a Coréia, o Japão, Tailândia e a China estivessem dominando a Europa Continental e, diante disso, a Inglaterra reagisse. Aí parece que faz sentido, não é mesmo?

Que eles “pagam até hoje pela guerra” é verdade. A única questão fica na justiça disso. A nova geração, que não é culpada pelos atos dos seus antepassados, agora tem que lidar com o ódio dos chineses e coreanos. Enquanto aqui, os americanos trataram de apagar todo o ressentimento do coração dos japoneses em relação a eles, na China, principalmente, eles são ensinados a odiar o Japão. Um amigo meu coreano me contou que lá na Coréia (do Sul) todo mundo dizia que os japoneses são maus e que ele também pensava assim, até vir para o Japão e ver que não era asssim. Imagine o que pensam os coreanos do norte! Outro dia eu vi na tevê um coreano (do sul) sendo perguntado sobre a possibilidade dos Estados Unidos invadirem a Coréia do Norte. O cara respondeu “Eu acho que se os Estados Unidos invadirem a Coréia do Norte, nós devemos atacar o Japão”. É até de dar risada! Não tem lógica. Se ele dissesse que lutaria em favor da Coréia do Norte, eu até entenderia…

No meio de tudo isso, o Japão não é culpado só pelo que fez nos outros países asiáticos, mas como eu disse antes, culpam o Japão pela própria bomba atômica da qual foi vítima. Os sobreviventes da bomba atômica ganham até hoje uma pensão especial do governo (japonês), como uma espécie de indenização. Mas quem bombardeou civis no Japão foram os Estados Unidos! Não seria justo que eles pagassem essa indenização???


Os japoneses sofreram uma lavagem cerebral e esse efeito se prolonga até os dias de hoje. Isso é um fato. Dizem também que os japoneses de hoje estão muito americanizados, mas eu não concordo com isso. Pelo menos essa “americanização” não deve ser resultado da lavagem cerebral planejada que eu falei. Como disseram os escritores que eu citei, a abordagem dos americanos era ”livre“. As pessoas não foram obrigadas a pensar de determinada forma, mas condicionadas. Por exemplo, embora o fanatismo religioso que movia os soldados no campo de batalha tenha sido desencorajado, a religião no Japão não foi proibida. Dessa forma, se há uma americanização das novas gerações, isso não significa que os japoneses perderam os seus valores tradicionais (não digo a mesma coisa sobre a China!). Dá para perceber claramente a diferença entre gerações no Japão. A nova geração nasceu num país desenvolvido e tecnológico, bem diferente da geração seus avós, que até fome passaram. É natural que pensem e ajam de maneira diferente, mas isso não implica necessariamente que estejam ocidentalizados. E não estão. São japoneses à sua própria maneira. (Para explicar essa última frase, eu tenho que pensar melhor nuns exemplos. Fica para outro dia).

Olhando por outro lado, o amor à paz, que em grande parte é fruto da lavagem cerebral, foi muito bom. Quisera que os Estados Unidos promovessem uma lavagem cerebral em todos os países do mundo! Se os outros povos tivesse a metade do amor à paz, ódio e temor à guerra e respeito aos outros povos que os japoneses de hoje tem, nunca mais haveria guerras no mundo. Não acho que o passado deve ser esquecido. Não. Deve ser lembrado sim, mas ficar remoendo ressentimentos e ódio não leva a lugar nenhum. O meu amigo coreano dizia: “Esquecer do que o Japão fez para a Coréia, isso eu não esqueço. Mas, vamos deixar isso de lado sejamos amigos daqui pra frente!” Certas desavenças só se resolvem com a generosidade do perdão.

O Peido

Não precisa passar muito tempo no Japão para perceber isso. Acredito que até mesmo quem vem aqui a turismo e anda pelas lojas e pontos turísticos durante uns 3 dias acaba desconfiando. Eu, depois de quatro anos morando aqui, agora tenho certeza: os japoneses não perdoam, peidam mesmo!

Nos meus primeiros meses aqui, neste país tecnológico, eu passeavam muito por lojas de eletrônicos. Tudo o que é inventado no Japão é colocado primeiro no mercado interno, para depois, quem sabe aparecer pela Europa e Estados Unidos e, finalmente no Brasil. Muitos produtos nunca chegam a ser vendidos fora do Japão. Isso faz das lojas japonesas um um lugar único para conhecer as últimas novidades tecnológicas.

As lojas, como tudo no Japão, deixam pouco espaço para circular. O corredor entre as prateleiras não permite que duas pessoas se cruzem sem torcer um pouco os ombros e os braços para não se tocarem. Se tiver uma pessoa parada olhando algum produto no meio de um corredor, às vezes é mais cômodo dar a volta pelo outro corredor do que pedir licença para passar.

Nesse ambiente, quando você está concentrado mexendo numa novidade da tecnologia japonesa (sim, aqui dá para mexer em tudo!) e menos espera, o ar começa a ficar cada vez mais pesado, difícil de respirar. Eu, quando ainda não estava acostumado, não achava que pudesse ser… afinal no Japão há muitos cheiros desagradáveis que saem dos exaustores dos restaurantes e por vezes penetram até dentro das lojas. Assim, acabava cheirando, até que aos poucos fui me dando conta da verdade irrefutável: é peido!

Já me aconteceu de entrar numa loja atrás de um produto específico e exatamente a prateleira do produto já estar peidada. Virei as costas e saí. No começo eu até conseguia, discretamente trancando o nariz com os dedos, agüentar enquanto olhava os produtos, mas depois da terceira ou quarta vez, decidi que não valia a pena o sacrifício.

Eu diria que o Brasil não é um país muito civilizado, principalmente quando comparado com o Japão, que na minha opinião, é talvez o país mais civilizado do mundo. Mas no quesito “peido”, nós estamos a anos-luz na frente deles. O brasileiro é extremamente contido e respeitoso neste aspecto. Aprendemos desde pequenininhos que não se peida na frente de estranhos, nem em lugares públicos pouco arejados. Peidamos em família, entre amigos íntimos, em situações bem específicas. Sabemos onde, quando e como podemos peidar.

Eu lembro de ter sido ensinado isso na escola. Toda criança peida. Peidar é natural. As mães repreendem, mas sempre em tom de brincadeira. Nunca ouvi falar de alguém que tivesse apanhado por ter peidado. Mesmo assim, eu tinha consciência que não era uma coisa boa, mas ainda não sabia o que fazer quando tinha vontade. Até que uma professora minha explicou que a gente deveria se retirar, para um lugar que não tivesse ninguém e soltar lá. Caso estivesse na casa de alguém e não pudesse sair para fora, então que pedisse licença para ir no banheiro (ninguém sabe o que você vai fazer lá dentro…).Eu tive sorte de ter uma professora que me ensinasse o que fazer, mas mesmo quem nunca teve esse privilégio, sabe exatamente o que fazer. Quem já não foi atrás de um amigo numa festa, que de repente se retirou para um canto, só para descobrir que ele tinha ido lá para liberar um gás?

Japonês não faz isso. Ontem mesmo, no meu trabalho, eu vi um colega mais antigo ensinando um colega mais novo. Quando eu cheguei perto, a área estava peidada. Ou seja, um deles peidou, sem ter a mínima consideração com o outro que não podia sair de perto. Na universidade, uma vez, eu quase me retirei no meio de uma apresentação do seminário do meu orientador.

Naquele dia eu estava cansado, mas não podia deixar de comparecer ao seminário. A sala estava cheia, com umas 25 pessoas. De repente começou a pesar o ar, a respiração começou a ficar difícil. Pensei: “vou trancar o nariz discretamente e esperar passar”. Foi diminuindo aos poucos, mas de repente, voltou a intensificar-se. Contei, em 25 minutos, três peidos com o mesmo cheiro.

Se fosse no Brasil, no primeiro peido, o seminário já seria interrompido, algumas se afastariam da área infestada e a janela seria aberta. No segundo peido, o professor pararia a apresentação para solicitar que o autor dos peidos resolvesse o seu problema em outro lugar e respeitasse quem estava ali para ouvi-lo e o terceiro, jamais seria libertado dentro da sala. No Japão não. Aqui todo mundo ignora.

Ignoram mesmo. Outro dia, na fila do check-in do hotel, um senhor soltou um longo e sonoro. Eu olhei indignado (esta é a reação natural de um brasileiro). Dos japoneses ao redor, nenhum olhar de reprovação, nenhum dedo no nariz, nenhum movimento centrífugo em relação à rodela criminosa. Nada. Ignorância total, como se absolutamente nada se tivesse ouvido.

Isso derrubou uma teoria que eu tinha de que os japoneses peidavam livremente por terem a certeza da impunidade. Pode-se soltar um silencioso numa loja de eletrônicos e ficar impune. Mas não há escapatória quando sei peida a dois ou quando reverbera. Ainda estou atrás de uma resposta para essa questão, pois vai totalmente contra os princípios da cultura japonesa, que condena qualquer ato deliberado ou não que possa de alguma forma causar incômodo a outrem. Peidar é meiwaku!